O Primeiro Encontro por Ricardo Costa

arrival_2Sinopse: Quando misteriosas naves espaciais aterram em vários pontos do globo, uma equipa de cientistas liderada pela especialista em linguística Louise Banks (Amy Adams), reune-se para investigar e enquanto a humanidade está à beira de dar inicio à resposta armada contra os invasores, Banks e a sua equipa lutam contra o tempo em busca de respostas sobre as verdadeiras intenções dos visitantes.

Análise: Denis Villeneuve já conta com vários trabalhos de realização, dos quais até agora só tive o prazer de ver dois, que por si só, são filmes excelentes que demonstram a mestria na criação de ambientes tensos, quer seja o cenário desolador do desaparecimento de familiares de “Prisioners” ou o medo na iminência do perigo aparecer a qualquer momento em “Sicario”. Na minha lista dos filmes deste realizador, ainda está pendente para ver “Incendies – A Mulher que Canta” e “O Homem Duplicado” que é a adaptação do livro da autoria de José Saramago com o mesmo nome. Só esta explicação penso ser suficiente para se notar minha latente expetativa em relação a este filme, pois é com alguma confiança que digo que estamos perante um dos melhores realizadores contemporâneos e em “O Primeiro Encontro”, Villeneuve demonstra versatilidade ao abordar um novo género cinematográfico de uma forma brilhante.arrival_3A introdução do filme parece bastante reminiscente das películas de Terrence Malick, com um aspeto de um sonho melodramático, apetrechado com todos os traços habituais de uma memória da personagem principal que debita expressões filosóficas mas sem grande contexto. Um começo deste tipo, embora não lhe tirasse o mérito da esplendorosa realização visual, pareceu-me bastante pretensioso o que toldou um pouco as minhas expectativas, mas mal sabia eu que a dada altura ira ver essa cena inicial com outros olhos. Visualmente, o realizador trás a sua característica tela de cores esbatidas, com ambientes soturnos tenuemente iluminados que por vezes dá um sentimento de opressão e com a ajuda da banda sonora, que em certos momentos abusa nos tons graves propositadamente para nos fazer sentir desconforto, acerta em cheio na tensão que as personagens sentem nesse dado momento. O acontecimento do título ocorre de imediato sem grandes introduções ou exposições e ao fim dos primeiros minutos de filme, encontramo-nos no mesmo pé das personagens, a contemplar estranhos objetos ovais com centenas de metros de altura a pairarem sobre o solo. Doze dessas naves aterram em diferentes partes do globo e com isso temos várias prespetivas sobre como as várias culturas e civilizações encaram essa chegada inesperada e embora muitos países estejam com o dedo no gatilho, preparados assim para qualquer eventualidade, vários cientistas ganham acesso ao OVNI a fim de descobrir as motivações dos extraterrestres.

arrival_4Louise Banks aqui interpretada por Amy Adams é a personagem principal, uma especialista em linguística cujo objetivo é descodificar o complexo método de comunicação dos seres espaciais. Amy Adams tem uma prestação admirável e consegue parecer capaz mesmo com toda a tensão e desorientação que uma situação deste género acarretaria, pois mesmo com os acontecimentos que deixam a personagem afetada física e psicologicamente, a sua inteligência e conhecimento conseguem sempre levar a melhor. Isto significa que estamos na presença de um ponto forte do filme que não tem sido fácil de encontrar ultimamente na 7ª arte: uma forte protagonista feminina que supera as suas dificuldades graças ás suas capacidades ao invés da sua dependência de terceiros. Os atores que têm papeis secundários são também bastante convincentes e transmitem de forma credível a insegurança que seria de esperar neste caso peculiar, independente da mentalidade mais pacifista ou agressiva para com os visitantes. No entanto apesar de todos estes pontos positivos, a grande mais valia encontra-se na maneira como foi estruturado o argumento.

arrival_5Todo o marketing dá a entender que estamos perante uma típica película de um ataque extraterrestre, em que a humanidade tem de por de lado diferenças mesquinhas e unir-se sobre a liderança de um carismático herói… mas como já tiveram oportunidade de reparar, em momento algum referi a qualidade dos momentos de ação e não porque eles não existam, mas sim porque o filme consegue transcender o género além da tradicional explosão sensorial de efeitos especiais. A experiência não é muito comparável a “Dia da Independência”, assemelhando-se mais ao estilo de “Contacto”, no entanto com uma narrativa muito superior. A audiência acompanha todas as tribulações no mesmo patamar da personagem principal, por isso ao mesmo tempo que ocorre a revelação da solução para a protagonista, também nós experiênciamos a mesma sensação de termos desvendado um mistério. Chama-se a isso confiança na inteligência e no poder de dedução da audiência, onde apenas com algumas pistas, é possível compreender e encontrar a solução, o que faz com que a revelação surpresa no final, para além de fazer sentido seja muito mais satisfatória. Considero por isso o argumento a arma mais poderosa de “O Primeiro Encontro”, pois para além de surpreender, consegue a subverter as expectativas e fazer com que o espetador se sinta parte integrante da história a ser contada, algo que muito poucos filmes conseguem fazer com sucesso hoje em dia.

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Recomendação Final: Graças à eximia realização a que Denis Villenmeuve nos tem habituado e à competente adaptação da propriedade intelectual, “Primeiro Encontro” arrisca não subestimar a audiência com explicações exageradas, deixando que cada um interprete a seu ritmo a trama que se desenrola. A ciência é cativante e Amy Adams é uma excelente protagonista para nos guiar ao longo de uma história que é emocional sem ser manipulativa. Sem sobra de dúvida, um dos melhores filmes que tive o prazer de ver este ano.

Classificação final★ ★  ★  (5/5)

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