Rogue One: Uma História de Star Wars por Ricardo Costa

rogue_one_1Sinopse: A história de um grupo de rebeldes que se unem numa perigosa missão que consiste em roubar os planos da Estrela da Morte, a mais recente e implacável arma de destruição do Império.

Análise: A expressão filmes de “linha de produção” normalmente é aplicada com um sentido depreciativo a filmes que continuam a ganhar sequelas apesar da sua sofrível qualidade, pois embora sendo universalmente odiados pela critica, conseguem arrecadar grandes quantidades de dinheiro e isso normalmente não acontece com os filmes ditos “bons” porque esses custam bem mais a fazer. No entanto tem-se verificado nos últimos anos que esta mentalidade de “linha de produção” aliada a um “controlo de qualidade”, é algo que tem dado resultado: filmes produzidos com curtos intervalos entre eles mas com equipas distintas que se ocupam de garantir a qualidade do produto final assegurando assim um fluxo de entretenimento para a audiência e lucros financeiros para o estúdio. Com a aquisição da propriedade intelectual mais apetecível do mundo do cinema, a Disney decidiu planear uma nova trilogia episódica de “Star Wars” assim como alguns filmes que têm lugar no mesmo universo mas que não são consideradas sequelas ou prequelas (spin-offs). O primeiro desses spin-offs é “Rogue One”, a história de um grupo de rebeldes e a sua saga para encontrar e divulgar o ponto fraco de uma arma de destruição planetária que se enquadra pouco antes do primeiro filme da saga que estreou há quase 40 anos atrás. Como todas as histórias dos livros, bandas desenhadas e jogos de video, foram eliminadas oficialmente da mitologia, este é o momento crucial de expandir o universo e aproveitar tudo aquilo que uma propriedade desta categoria pode oferecer e sendo este o primeiro passo, é definitivamente um bom começo para toda uma nova panóplia de filmes baseados nas histórias que se passaram nesta galáxia muito, muito distante.

rogue_one_2Nos primeiros momentos torna-se clara a intenção de Gareth Edwards de se distanciar da cronologia episódica em vigor e pode por isso parecer estranho começar o filme sem a clássica banda sonora de John Williams, no entanto essa decisão de se diferenciar é bramida com a confiança de que é possível criar uma narrativa memorável sem as constrições e obrigações da mitologia já estabelecida. Quando nos é apresentada a nossa equipa de “heróis”, a mesma é bastante diversificada e o que salta mais à vista são as personalidades essencialmente rígidas, moldadas por passados problemáticos e que não parecem merecer a nossa empatia. No entanto este é o exato tipo de pessoas que encontraríamos numa força rebelde que durante anos lutou contra um regime opressor e graças ao esforço imposto no argumento sobre a caracterização física e psicológica de cada uma das personagens, realçando as suas qualidades mas também os seus defeitos, existe uma humanização que faz com que nos identifiquemos com os protagonistas e por isso facilmente nos encontramos a torcer por um grupo onde o coeficiente de honra é muito menor comparativamente com o que estamos habituados nesta saga. No campo da representação embora todos os atores se portem de forma admirável, há que fazer menção especial a Alan Tudyk da série “Firefly” como a voz do robô 2-KSO com um humor tão sarcástico que parece que estamos a ver uma versão mecanizada de Bill Murray em ação, Ben Mendelsohn como um dos principais vilões tem toda a personalidade ameaçadora que dele é requerida e Donnie Yen, que tem como personagem um amigável monge que acredita da “Força” e que quando põe em pratica as suas proezas atléticas, mostra ser um guerreiro valioso.

rogue_one_3Esteticamente, foi tida uma grande atenção ao detalhe, de forma a fundir um estilo agora arcaico criado em 1977 no que diz respeito ás estruturas, indumentárias e gráficos computorizados, com as capacidades modernas de produção de efeitos especiais. A jogada mais arriscada foi sem duvida a renderização digital de algumas personagens cujos atores que já faleceram ou já não se encontram em condições de interpretar para o efeito da história em curso. É um ato louvável e há alguns anos atrás seria tomado como um grande feito, mas infelizmente é uma tecnologia que ainda não está totalmente aperfeiçoada e por isso esbarramos inevitavelmente com o problema do chamado “uncanny valley”. Esta expressão é usada quando há uma tentativa de reprodução da aparência humana num formato totalmente digital e significa essencialmente que a aproximação está tão perto da realidade, que a mais pequena imperfeição destrói a ilusão por completo, sendo os principais culpados a zona dos olhos e movimentos da boca em sincronização com as palavras. Para evitar esta situação, uma simples solução seria dar menos tempo de antena a essas personagens, obscurecendo-as um pouco para não ser tão evidente estas lacunas, mas infelizmente nota-se o suficiente para ser relevante apontar, o que é pena porque a nível visual, é na sua generalidade um filme de encher o olho.

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A tentativa de fundir o estilo de um filme de guerra com a mitologia espacial de “Guerra das Estrelas”, dá origem a um terceiro ato cheio de ação com diversos momentos visuais resplandecentes, desde os modelos práticos, ás paisagens, incluindo objetos totalmente gerados por computador e um fenomenal sentido de escala. A banda sonora tenta caminhar a mesma linha do filme, utiliza muita musica criada pelo homónimo John Williams, mas tenta diferenciar-se com momentos criados de forma original, no entanto o resultado final é estranhamente pouco memorável e de certo modo não cria a sua identidade própria como acontece com quase todos os outros pontos do filme. Nos restantes aspetos verifica-se tremenda competência, quer seja no argumento simplificado e linear ou na realização e edição que abandona muitas das técnicas já conhecidas em favor de filmagens mais corridas e aproximadas dos atores e da ação, algo que abona bastante a favor de um filme que tenta a todo o custo mostrar com confiança que é possível diversificar e ao mesmo tempo respeitar e homenagear a propriedade intelectual em que se baseia, já para não falar que os fãs mais acérrimos vão detetar várias referencias ás iterações anteriores.

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Recomendação Final: Avizinha-se um futuro brilhante para estes spin-offs se continuarem a arriscar desta forma. Embora a renderização facial e a banda sonora pouco memorável sejam pormenores suficientemente aparentes, a motivação e caracterização dos heróis é convincente, a jornada é cativante e possui uma qualidade a nível visual que é sem duvida esplendorosa assim como vários momentos que serão um deleite para os fãs. Esta é a prova de que é possível distanciar-se o suficiente da famosa narrativa episódica e criar uma nova história num universo que ainda tem tanto para explorar.

Classificação final★ ★   (4/5)

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