Stranger Things (1ª Temporada) por Ricardo Costa

strangerthingsposterSinopse: 1983 – Hawkins, Indiana. Um rapaz de 12 anos desapareceu misteriosamente sem deixar rastro. Enquanto procuram respostas, a polícia local, a família e os amigos do menino acabam por mergulhar num extraordinário mistério que envolve uma experiência secreta do governo, forças sobrenaturais e uma rapariga muito estranha.

Existem normalmente dois tipos de séries no que diz respeito à estrutura: uma série “episódica” tem uma trama que inicia com cada episódio e tem resolução no final do mesmo, seguindo os episódios seguintes uma estrutura semelhante sem que seja obrigatório, na maioria das vezes, estar ao corrente de episódios anteriores para acompanhar a trama (por exemplo “CSI” ou “NCIS”). No caso de séries “sequenciais”, a trama tem um fio condutor dividido por todos os episódios e geralmente significa que não ver um episódio isolado, pode causar dificuldades na compreensão da história a ser contada (por exemplo “Guerra dos Tronos” e “True Detective”). “Stranger Things” faz parte da 2ª categoria e é distribuído pelo serviço de streaming NETFLIX que tem surpreendido com a qualidade de muitas séries originais. Desta vez, com a realização dos Irmãos Duffer, temos uma série que tem como objetivo capitalizar sobre a nostalgia, com uma fusão de influências que vão desde Spielberg até Carpenter, mas transcende a homenagem pois respeita a inteligência da audiência e é coesa no argumento sem perder tempo com os desvios da narrativa principal.stranger-things-on-netflix

A história passa-se nos anos 80 e através das músicas, publicidades e guarda-roupa, verifica-se a preocupação em recriar uma estética bastante reminiscente dessa época onde são estabelecidos os protagonistas da história. Acompanhamos quatro jovens amigos, fãs de ciência, cinema e fantasia com personalidades e atitudes características da sua tenra idade, que subitamente se vêm em discussões sobre preocupações tão frívolas, que salta à vista o realismo dos diálogos e prestações de uma competência que não é nada comum em pequenos atores, algo que é exacerbado ainda mais quando conhecemos outra jovem atriz que rouba o protagonismo de todas as cenas em que entra. Quanto aos restantes atores, todos interpretam o seu papel admiravelmente, com maior relevo para Winona Rider que protagoniza a mãe de um jovem desaparecido em condições misteriosas e cuja personalidade nervosa mas consciente, é estabelecida antes do desaparecimento ter lugar, a fim de justificar o seu comportamento desesperado. No entanto o elemento que me surpreendeu mais foi um argumento que inesperadamente subverte as expectativas quanto ás personagens.

Já é de louvar um argumento que seja inesperado, mas neste caso, quando nos são apresentados elementos narrativos que reconhecemos, os argumentistas escolheram seguir o caminho mais inteligente de transformar, neste caso especifico, duas personagens que aparentam ser autênticos clichés, em personagens participativas na trama principal e que se tornam alvo de grande empatia da nossa parte. A história em si é bastante linear e as bifurcações para histórias secundárias ocorrem, mas são muito breves e concluem no momento em que alcançam o propósito de desenvolver as relações entre as personagens e estabelecer o carácter de algumas delas. O conceito central tem grande base na ficção científica, mas em diversos momentos são feitos paralelismos com títulos de fantasia como “Senhor dos Anéis” ou “Dungeons & Dragons”, assim como artisticamente são notórias as influências de jogos como “Silent Hill” e filmes como “E.T.”, ou até “Tangerine Dreams” no que diz respeito à hipnótica banda sonora.

A série conta com 8 episódios na sua 1ª temporada, uma escolha apropriada que permite um fluxo coerente da narrativa sem necessidade do usual “encher chouriço” apenas para cumprir o tempo total estipulado. Os mistérios e revelação são polvilhados de forma a que não se acumulem demasiadas questões que possam minimizar o investimento do espetador, por isso não se preocupem aqueles que não gostam de séries que não respeitam a audiência e não oferecem qualquer explicação para os mistérios, pois o final encerra por definitivo a história e o arco das personagens, com dois ou três piscares de olho que podem servir para preenchermos com as nossas conclusões e deixar em aberto uma possível continuação da série. E é aí que se encontra o ponto que mais me preocupa… pois esta temporada teve um ritmo perfeito, sem momentos obsoletos, numa condensação eximia de todos os elementos. Dar continuidade a tão grande artificio, vai ser complicado e extremamente desafiante, só espero que todos os intervenientes da equipa de produção tenham aprendido as lições certas com este sucesso e que a nova temporada possa ser maior e melhor.Recomendação Final: Devido à elevada quantidade de referências, “Stranger Things” caminha uma estreita linha entre o plágio e a homenagem, no entanto a intenção de criar algo novo é palpável e os elementos que utiliza de outras fontes, têm o objectivo de criar um ambiente cativante, repleto de personagens bem caracterizadas e uma trama original com um mistério que vale a pena desvendar. Embora o tom não seja adequado aos mais novos, os que decidirem aventurar-se nesta história certamente não sairão desiludidos, pois é da melhor ficção seriada que podem encontrar de momento.

Classificação final ★ ★ ★  (5/5)

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